“Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”, diz o adágio popular. O ditado espelha o distrito de Moamba, a sul da província de Maputo, marcado pela resiliência perante os desafios dos investimentos, da pobreza e dos desastres climáticos, como secas e cheias, actualmente agravados pelos fenómenos El Niño. Apesar das dificuldades, os sinais de desenvolvimento começam a despontar, ainda que a um ritmo pouco acelerado.
A cerca de 70 quilómetros da capital do País, Moamba procura novas oportunidades, apoiando-se na sua localização estratégica junto à Estrada Nacional Número Quatro (N4) e à fronteira de Ressano Garcia, com a África do Sul. Estas condições favorecem a transformação do distrito num polo industrial e habitacional.
Com aproximadamente 4 528 km² e uma população estimada em 124 mil habitantes, segundo dados do último censo do Instituto Nacional de Estatística (INE), Moamba é o maior distrito da província de Maputo e integra quatro postos administrativos: Moamba, Pessene, Ressano Garcia e Sábie. Embora ainda careça de investimentos, o distrito possui potencial nos sectores agro-negócio, industrial e pecuário.
Para o economista Clésio Foia, o desafio central é transformar esse potencial em produtividade, valor acrescentado e rendimento para a população. “A proximidade dos mercados de Maputo e Matola, as ligações rodoviárias regionais, a disponibilidade potencial de terras e os recursos hídricos associados à barragem de Corumana são vantagens importantes, mas não geram, por si só, riqueza, emprego e melhores condições de vida”, assinala Foia, defendendo uma estratégia assente em três prioridades: aumentar a produtividade agropecuária; desenvolver cadeias de valor que liguem produtores, indústria e mercados; e melhorar o ambiente de negócios, a formação profissional e as infra-estruturas essenciais.
O economista propõe também acompanhar indicadores como produção por hectare, emprego formal, salários, compras locais, sobrevivência das empresas e execução dos investimentos anunciados.
Apesar dos constrangimentos, Moamba começa a receber investimentos capazes de diversificar a economia, sobretudo nos sectores industrial e agro-pecuário. Um dos projectos de maior dimensão é o da Safira Moçambique Cerâmica Limitada, investimento de origem chinesa avaliado em 100 milhões de dólares e inaugurado em 2024 e localizado numa área de 3000 hectares. O empreendimento produz tijoleiras e azulejos e representa uma aposta na actividade industrial do distrito.
Na agricultura, destacam-se a produção de banana, papaia, lichia, batata-reno e gengibre. Desde 2021, Moamba tem-se afirmado na produção de banana, impulsionada pela empresa Bananalândia, produzindo cerca de 3,5 milhões de caixas por ano, numa área aproximada de 900 hectares, e emprega mais de mil trabalhadores.
A este respeito, o administrador distrital, Carlos Mussanhane, destaca o crescimento das exportações de gengibre e banana: “Estamos a exportar gengibre para a Austrália, para o Canadá, para os Estados Unidos, para a África do Sul e Europa. Estamos a exportar banana também para o mercado sul-africano, mas também para o mercado europeu”.

As perspectivas para a batata-reno são animadoras. Segundo Mussanhane, um produtor estima uma colheita de cerca de seis mil toneladas. O administrador considera que a capacidade produtiva poderá reduzir a dependência das importações e reforçar o abastecimento nacional. “Temos capacidade de abastecer o País até 80%”, afirmou.
Ainda assim, persiste o desafio em fazer com que a expansão económica se traduza em mais emprego, melhores rendimentos e oportunidades para as comunidades.
Estradas condicionam o escoamento
Apesar dos investimentos agrícolas e industriais, a precariedade das infra-estruturas continua a limitar a expansão das actividades. As vias de acesso dificultam o transporte da produção para os mercados de Maputo, Matola e outras províncias, sobretudo durante a época chuvosa, quando a circulação de pessoas e mercadorias se torna mais difícil.
Joana Magaia, agricultora residente no distrito há mais de quatro décadas, reconhece os trabalhos de manutenção realizados pelas autoridades, mas considera que os resultados não duram: “As vias de acesso são ainda críticas no distrito. As autoridades têm vindo a fazer um trabalho de manutenção, mas infelizmente voltamos a sofrer sempre que chove”.
Beatriz Mafavuca, também agricultora, defende maior investimento na pavimentação das estradas usadas para transportar os produtos: “Nós somos o celeiro da província de Maputo. Produzimos tudo o que se consome na província de Maputo e até em Gaza e Inhambane. O Governo tem de ver a situação das estradas de Moamba. O que queremos, na verdade, é que pavimente todas as vias que servem para o escoamento, pois isso vai-nos incentivar a produzir mais”.
Na verdade, os testemunhos convergem no mesmo pensamento e evidenciam um problema estrutural: produzir mais não garante melhores rendimentos se os agricultores não conseguem levar os produtos aos mercados. A melhoria das estradas pode reduzir os custos de transporte, minimizar perdas e aproximar os produtores das unidades de processamento industrial e dos consumidores.
Para Clésio Foia, a criação de cadeias de valor é essencial para ligar a produção agrícola à indústria e aos mercados, aumentando o valor acrescentado gerado no distrito.
Crescimento populacional pressiona os serviços básicos
O aumento da população e das necessidades sociais pressiona os serviços públicos. O crescimento demográfico exige mais escolas, unidades sanitárias, abastecimento de água, estradas e outros serviços essenciais, mas a capacidade das infra-estruturas existentes continua a ser um desafio.
Carlos Mussanhane reconhece limitações, particularmente na educação: “Temos ainda grandes desafios em várias áreas, sobretudo nas infra-estruturas e educação. O distrito de Moamba tem neste momento 86 escolas, mas a população não pára de crescer. E isso demanda mais investimentos”.
A falta de emprego, sobretudo para os jovens, constitui outro problema. Apesar de a população ser maioritariamente jovem, as oportunidades de trabalho continuam insuficientes para responder à procura. Fabião Machavanhane, de 74 anos, residente na vila de Moamba, lamenta a situação: “É triste ver o que muitos jovens passam actualmente. No passado, pouca gente havia estudado, mesmo assim, conseguíamos ter emprego. Diferente de nós, eles estudaram, mas não conseguem emprego”.
Machavanhane apela à intervenção do Governo, alertando que a falta de oportunidades pode empurrar alguns jovens para os vícios e o crime.
Não obstante, Clésio Foia alerta que a insuficiência de infra-estruturas produtivas, a escassez de competências técnicas, a fraca ligação entre agricultura e indústria, as dificuldades de acesso aos mercados e as limitações do ordenamento territorial continuam a travar o desenvolvimento. O economista considera igualmente necessária informação económica distrital mais completa, nomeadamente sobre emprego formal, produtividade, investimento executado e valor acrescentado por sector.
“Há necessidade de elevar a produtividade agro-pecuária, desenvolver cadeias de valor e melhorar o ambiente de negócios, a formação profissional e as infra-estruturas essenciais”, reitera Foia.
El Niño agrava a vulnerabilidade
Numa altura em que Moamba procura consolidar os seus avanços económicos e sociais, os fenómenos climáticos extremos ameaçam a sustentabilidade do desenvolvimento. O distrito é vulnerável a cheias e secas, devido, entre outros factores, à presença das bacias hidrográficas dos rios Incomáti e Sábie. Estes fenómenos afectam as comunidades, as infra-estruturas e, em particular, a agricultura, da qual depende uma parte importante da economia local.
Para o efeito, Carlos Mussanhane reconhece que os eventos extremos provocam retrocessos: “Infelizmente, estamos numa zona em que tudo nos apanha. Quando são eventos extremos na perspectiva de cheias, ciclones, ventos, somos apanhados, porque temos duas bacias hidrográficas que são o Incomáti e Sábie. Então, o distrito é vulnerável para as duas realidades, e tem criado muito retrocesso”.
Na verdade, Moamba reúne condições para reforçar o seu contributo para a economia provincial e nacional, mas o desenvolvimento continua condicionado por estradas deficientes, emprego insuficiente, pressão sobre os serviços básicos e riscos climáticos. No entanto, transformar os recursos e os investimentos em melhorias concretas para a população exigirá infra-estruturas resistentes, maior ligação entre agricultura e indústria, qualificação profissional e oportunidades de trabalho. Perante os desafios, a resiliência do distrito continua a ser uma das suas principais marcas.
Texto: Hermenegildo Langa
(Foto DR)



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