O embuste dos novos Embraer da LAM que já carregam quase duas décadas de desgaste na Europa

O embuste dos novos Embraer da LAM que já carregam quase duas décadas de desgaste na Europa

A companhia aérea de bandeira, LAM – Linhas Aéreas de Moçambique, está no centro de um novo escândalo de gestão que promete agitar os corredores do Ministério dos Transportes e Logística. Os dois jatos Embraer E190, apresentados publicamente como o grande trunfo da “nova era” de modernização da frota nacional, são, na verdade, aeronaves em fim de ciclo operacional que voaram intensamente durante quase vinte anos nos céus europeus.

Investigações baseadas em dados de registo internacional da publicação especializada CH-Aviation revelam que os dois aparelhos serviram a operadora KLM Cityhopper, a subsidiária regional da gigante holandesa KLM, desde meados de 2008. Após serem “reformados” por obsolescência e desgaste pela companhia europeia, os jatos foram parar às mãos da intermediária norte-americana Regional One, que acabou por os reencaminhar para Moçambique num negócio avaliado em cerca de 25 milhões de dólares.

Adquirir aeronaves com quase duas décadas de uso comercial significa herdar uma factura pesadíssima a curto prazo. À medida que um avião atinge esta idade técnica, os custos com a substituição de componentes estruturais disparam, o consumo de combustível torna-se menos eficiente e o tempo de imobilização para manutenção passa a ser muito maior, comprometendo a tão propalada fiabilidade dos voos domésticos em Moçambique.

A prova de que a LAM comprou um autêntico “presente envenenado” materializou-se nos últimos seis meses em Joanesburgo, na África do Sul. Os dois jatos ficaram retidos em solo sul-africano desde o final do ano passado até ao término de maio deste ano. Enquanto a direcção técnica tentou sacudir a pressão pública alegando que a demora se devia apenas a “trabalhos de pintura para a nova identidade visual”, a investigação do Canal de Moçambique apurou que o cenário real roça o descalabro técnico.

Os dois Embraer E190 manifestaram graves avarias mecânicas ocultas assim que aterraram na África do Sul. Por terem quase 20 anos de uso, os sistemas hidráulicos e de propulsão exigiam peças de reposição imediatas. Contudo, a LAM deparou-se com uma barreira intransponível: devido ao histórico escândalo de subornos de 2009, a fabricante brasileira Embraer cortou a assistência directa à estatal moçambicana.

Sem acesso ao canal oficial de peças sobressalentes e isolada do mercado formal, a engenharia da LAM teve de se desdobrar em esquemas complexos no mercado secundário sul-africano para tentar “remendar” os aviões velhos. Enquanto os mecânicos procuravam peças à margem da fabricante, os cofres da empresa acumulavam prejuízos diários astronómicos em taxas de estacionamento no aeroporto de Joanesburgo. O caso deixa evidente que, sob a capa de modernização, o contribuinte moçambicano continua a pagar o preço de contratos opacos e de alto risco.

Imagem: DR

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