Nampula: África Indústrias na mira da Justiça por pagamentos milionários de mercadorias que nunca entraram no país

Nampula: África Indústrias na mira da Justiça por pagamentos milionários de mercadorias que nunca entraram no país

Investigação exclusiva desvenda esquema de transferências de mais de 12 milhões de dólares em operações sob suspeita de branqueamento de capitais e importações fictícias no Porto de Nacala.

Uma equipa composta por quatro magistrados do Ministério Público encontra-se a trabalhar intensamente na província de Nampula para investigar suspeitas graves em torno da África Indústrias, uma empresa instalada na Zona Económica Especial (ZEE) de Nacala. A operação comercial no centro da polémica envolve a importação declarada de óleo refinado, que afinal teria entrado no país sob a máscara de óleo bruto, gerando alertas severos nas autoridades judiciais e aduaneiras.

De acordo com informações reveladas pelo jornal Evidências, a investigação ganhou forte impulso na sequência de denúncias que culminaram na retenção, no último sábado, do navio Pacific Horizon no Porto de Nacala. A embarcação estaria no centro de um intrincado esquema de discrepâncias documentais e operacionais.

A análise detalhada ao histórico das importações, documentada pelo jornal Evidências, aponta para a existência de pagamentos avultados ao exterior destinados à aquisição de mercadorias cuja entrada efectiva em território moçambicano não pôde ser confirmada através dos registos marítimos oficiais. Destaca-se um pagamento superior a 12 milhões de dólares norte-americanos efetuado em Abril de 2025, dividido em 16 tranches por via de um banco comercial.

O que mais intriga os investigadores é o facto de o bill of lading (conhecimento de embarque) utilizado nestas transações não apresentar nem contramarca nem o nome do agente marítimo. Para além disso, a modalidade de pagamento escolhida foi o postepagamento (pós-embarque), um cenário que, segundo peritos citados pela mesma fonte, abre margem para a utilização de operações comerciais fictícias com o principal propósito de transferência ilícita de divisas e eventual branqueamento de capitais.

Ponto central da investigação: Cruzamentos de dados efectuados pelo jornal Evidências com base em mapas de escalas portuárias e registos de movimentação marítima não encontraram qualquer registo do navio Pacific Horizon nos portos moçambicanos durante o período indicado na documentação oficial.

A África Indústrias beneficia de um conjunto de incentivos e isenções aduaneiras e cambiais ao abrigo do regime especial das Zonas Económicas Especiais, criados teoricamente para dinamizar a transformação industrial e reduzir custos de investimento. Contudo, investigações do mesmo jornal apontam que esta generosidade fiscal tem servido de base para vulnerabilidades profundas no controlo cambial e na fiscalização tributária.

Documentos analisados mostram incongruências flagrantes: por exemplo, a factura comercial emitida pela empresa fornecedora NADAL Industries indicava o fornecimento de 500 toneladas métricas de Crude Palm Olein in Bulk num valor CIF de 765 mil dólares. Contudo, o documento de transporte (Bill of Lading) e o Documento Único (DU) apresentavam falhas crassas, como a ausência de números de contramarca e discrepâncias graves na classificação pautal entre óleo bruto e óleo refinado.

Face à gravidade dos factos e à suspeita de que estas manobras visavam retirar divisas do país sem a respectiva contrapartida em mercadorias reais, a Procuradoria Provincial de Nampula mobilizou esforços extraordinários. A presença dos magistrados de Maputo no terreno reforça a determinação das autoridades em apurar responsabilidades e travar eventuais redes de criminalidade económica ligadas ao aproveitamento abusivo de regimes preferenciais.

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