Um ano após a abertura das candidaturas ao Fundo de Desenvolvimento Económico Local (FDEL), mais de 560 projectos submetidos no distrito de Quissanga continuam sem ver a cor do dinheiro. O cenário expõe um fosso cada vez maior entre a sede de crédito dos pequenos empreendedores locais e os fundos injectados pelo Estado para impulsionar a economia comunitária.
A radiografia do problema foi detalhada pelo administrador distrital de Quissanga, Sidoneo José, em declarações prestadas à Zumbo FM Notícias nesta terça-feira (28 de Julho). Segundo o governante, o distrito recebeu escassos 2,8 milhões de meticais em 2025 para cobrir uma avalanche de cerca de 700 propostas enviadas pelos residentes dos três postos administrativos.
“Houve muita demanda, tivemos cerca de 700 petições. Esse número era extremamente maior em relação ao valor atribuído ao nosso distrito, mas conseguimos financiar cerca de 135 projectos na sua plenitude”, explicou Sidoneo José.
Na prática, os dados revelam uma taxa de aprovação inferior a 20%: menos de um em cada cinco candidatos conseguiu acesso ao capital inicial. Centenas de pequenas iniciativas comerciais, agrícolas e de serviços ficaram pelo caminho por falta de liquidez no fundo.
Neste momento, a administração local tenta fechar o ciclo do ano passado. O processo está na fase de amortização das dívidas, mas os mutuários enfrentam entraves burocráticos: aguardam a validação da instituição bancária parceira para poderem depositar as prestações dos empréstimos.
“Estamos na fase de reembolso dos valores, mas estamos à espera do aval do banco que entendemos que deve ser usado para as questões de reembolso dos fundos”, avançou o administrador.
Com o desejo de alavancar o negócio em 2026, vários beneficiários que já têm o dinheiro na mão manifestaram intenção de liquidar a dívida total de uma só vez, na esperança de garantirem novo valor no ciclo deste ano. No entanto, o Governo Distrital trava o entusiasmo e pede cautela.
A reeleição de mutuários recentes está a ser minuciosamente estudada para verificar se a engenharia e os regulamentos do FDEL permitem repetir beneficiários. Além disso, o administrador garantiu que as mais de 560 propostas chumbadas em 2025 terão prioridade absoluta de análise antes de se abrirem as portas aos fundos do presente ano.
“Temos projectos do ano passado que não conseguimos financiar e esses projectos devem ser trazidos à mesa antes de avançarmos para o financiamento do FDEL do presente ano”, vincou.
A forte pressão sobre o FDEL em Quissanga não é casual. O distrito tenta erguer-se após anos de profunda instabilidade provocada pelos ataques terroristas em Cabo Delgado, que destruíram tecidos produtivos e deixaram a população sem meios de subsistência.
A disparidade entre a procura e a oferta de crédito público reforça que, além de ser urgente reforçar o envelope financeiro do FDEL, persistem desafios estruturais de bancarização e gestão que condicionam a rápida retoma dos pequenos negócios na região.
Imagem: DR



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