Regime de P. Kagame investigado a 360º por jornalistas de 11 países

Regime de P. Kagame investigado a 360º por jornalistas de 11 países

Em 2022, os jornalistas ruandeses John Williams Ntwali e Samuel Baker Byansi investigam a presença de tropas ruandesas na República Democrática do Congo (RDC). No Ruanda, o assunto é tabu. O regime do Presidente Paul Kagame sempre negou qualquer envolvimento militar na vizinha RDC. Terão os dois jornalistas investigado demasiado?

Alguns dias após a publicação das suas investigações, Samuel Baker Byansi foi detido pelas autoridades ruandesas e interrogado sobre a sua deslocação à RDC. Foi libertado, mas as ameaças contra ele obrigaram-no a fugir do seu país. Alguns meses mais tarde, em janeiro de 2023, o seu colega John Williams Ntwali morreu subitamente em Kigali, oficialmente num acidente de viação. Mas as circunstâncias da sua morte permanecem obscuras até aos dias de hoje.

Os destinos trágicos destes dois jornalistas mostram que, no Ruanda, algumas investigações são impossíveis. No entanto, os seus casos estão longe de ser isolados. Outras vítimas da repressão do regime são as youtubers Yvonne Idamange e Aimable Karasira, que se encontram detidas; o antigo jornalista e requerente de asilo em Moçambique Cassien Ntamuhanga, desaparecido desde 2021; o jornalista Dieudonné Niyonsenga, conhecido por Cyuma, que se encontra atrás das grades, onde diz estar a ser mantido em condições “desumanas” e espancado; e a jornalista Agnès Nkusi, que fugiu recentemente do seu país após um período na prisão.

Com o projeto Rwanda Classified, Forbidden Stories decidiu contar estas histórias proibidas, graças ao trabalho coordenado de um consórcio de 50 jornalistas que representam 17 meios de comunicação social em onze países diferentes. Três destes meios de comunicação social são belgas: RTBF – com a sua equipa #Investigation -, Le Soir e Knack.

No Ruanda, investigámos as circunstâncias perturbadoras que rodearam a morte de John Williams Ntwali, dando continuidade às investigações que colocaram o jornalista na mira das autoridades. A começar pelo papel ainda não reconhecido de Kigali na RDC, que deixou desorientados os familiares dos soldados ruandeses mortos no Kivu do Norte, cuja história conseguimos reconstituir.

A face oculta do regime de Paul Kagame

Sob a coordenação de Forbidden Stories, os jornalistas investigaram também a face oculta do regime de Paul Kagame. Tentativas de assassínio, mortes suspeitas, intimidação, utilização de tecnologias de vigilância contra membros do seu próprio partido: Rwanda Classified revela como o governo ruandês pretende silenciar as vozes críticas, tanto no país como no estrangeiro.

Logicamente, o projeto Rwanda Classified também levou o consórcio a examinar a relação entre as nossas democracias e o Ruanda. Embora ainda muito dependente da ajuda internacional, o Ruanda tem sido descrito como um “país milagroso” graças à sua reconstrução pós-genocídio e ao seu desenvolvimento deslumbrante. Por ocasião da comemoração do trigésimo aniversário do genocídio dos Tutsis em 1994 – pelo qual a França reconheceu a sua responsabilidade – e das eleições presidenciais que se vão realizar em julho, os jornalistas do Rwanda Classified investigaram o “paradoxo ruandês” que torna o país tão atraente. Parcerias económicas, cooperação judiciária em matéria de migração, fornecimento de contingentes de forças de manutenção da paz: qual é a política de influência do Ruanda e que alavancas utiliza?

Em 2024, o Ruanda ocupava o 144º lugar entre 180 países no índice de liberdade de imprensa dos Repórteres Sem Fronteiras. Com Rwanda Classified, Forbidden Stories e os seus parceiros optaram por escrutinar o regime de Kigali e as suas políticas repressivas.

Após a publicação dos primeiros artigos, o governo ruandês emitiu uma declaração. As autoridades dizem estar habituadas a este tipo de “agitação mediática” e “recusaram-se a responder às repetidas acusações”.Kigali considera que as publicações estão “programadas para perturbar as próximas eleições presidenciais e legislativas”. Leia o texto original aqui.

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