Memento para Moçambique: um livro para voltar a abrir daqui a alguns anos

Memento para Moçambique: um livro para voltar a abrir daqui a alguns anos

Meu caro Professor Severino Ngoenha,

Que agradável surpresa foi este livro.

Estive consigo, em Dezembro de 2025, no pré-lançamento do seu livro “Mukhatchanadas”. Naquele dia, jamais imaginei que voltaria a encontrar uma nova obra sua tão cedo. Aproveito para agradecer ao meu amigo Milton Muiocha, que esteve no lançamento deste novo, o “Memento para Moçambique”, e teve a generosidade de me oferecer um exemplar. Há amigos que sabem exactamente de que livros precisamos, mesmo antes de nós próprios o sabermos.

Li o memento em quatro dias. E nunca sublinhei tanto um livro, como este. Vai me desculpar porque acho que cometi o que alguns podem chamar por profanação ou vandalização de uma obra de arte: sublinhei a caneta. E tenho a certeza de que voltarei a abrir estas páginas em 2029.

O que mais me impressionou foi a simplicidade da escrita, a frontalidade das ideias e a serenidade com que o Professor aborda temas que, entre nós, costumam ser tratados com paixão excessiva ou fidelização partidária. O livro não procura agradar ou desagradar a ninguém. Procura alertar.

Quando o Professor escreve que “um país não precisa de uma política em que uns ganham sempre; precisa de uma política em que o país não perde. Porque a maior derrota de uma nação não é o partido que perde eleições. A maior derrota de uma nação é o povo que perde futuro” (p. 80), tendo antes afirmado que “um país onde cada governo muda a direcção é um país onde o povo não sabe para onde vai” (p. 70), oferece-nos um diagnóstico claro do nosso presente. E não se limita ao diagnóstico. Abre também espaço para a reflexão sobre caminhos alternativos.

Na mesma linha, quando escreve que “uma república precisa de continuidade. E continuidade significa isto: existem prioridades do país que devem sobreviver às alternâncias” (p. 67), toca num dos problemas centrais do nosso desenvolvimento: a dificuldade de construir consensos nacionais duradouros.

Achei particularmente feliz a metáfora do guarda-chuva que atravessa a obra e serve de fio condutor para muitas das reflexões apresentadas. É uma imagem simples, acessível e, ao mesmo tempo, profundamente eficaz.

Concordo igualmente quando o Professor afirma que “a democracia, tal como muitas vezes é praticada, transforma-se numa guerra civil de baixa intensidade” (p. 66). Curiosamente, foi sobre algo muito próximo disto que conversámos em Dezembro, enquanto aguardávamos pelo início do seu evento de pré-lançamento. Na ocasião, tive o privilégio de lhe apresentar o meu livro “Ensaio sobre um Manifesto”, onde sustento a ideia de que o actual modelo democrático nos conduz repetidamente aos mesmos erros e já não responde aos desafios que enfrentamos enquanto nação.

Também encontro eco nas suas palavras quando escreve que “o país deve deixar de ser palco de projectos alheios para voltar a ser obra deliberada de si mesmo” (p. 61). Poucas frases resumem tão bem um dos dilemas centrais do nosso tempo.

Reconheço que estou a fazer esta análise quase de trás para a frente. Mas é que algumas das passagens mais marcantes encontram-se precisamente na segunda metade da obra.

Ainda assim, logo nas primeiras páginas, o Professor prepara o leitor para aquilo que virá. Quando escreve que “já não é possível continuar como se nada estivesse a acontecer” (p. 7), senti imediatamente que estava perante um livro de urgência nacional.

Na página 9, quando descreve um país que “vive a pobreza da maioria ao lado da riqueza visível de poucos“, procurei a receita para além do diagnóstico. E ela não demorou a surgir. Na página seguinte, escreve: “não se trata de prometer abundância onde ela é impossível. Trata-se de garantir o essencial sem o qual a cidadania se torna uma palavra vazia” (p. 10). Foi nesse momento que percebi que este não é um livro de slogans. É um livro de responsabilidade. O Professor não promete milagres nem soluções instantâneas. Procura, antes, recentrar a discussão naquilo que é possível, necessário e urgente. Percebi que o Professor não é sensacionalista, muito menos populista.

Outra passagem que me marcou profundamente foi esta: “A vitória, numa sociedade fracturada, produz vencidos morais. E vencidos morais não se reconciliam: esperam. Esperam o seu turno” (p. 27). Talvez seja precisamente por isso que voltarei a abrir estas páginas em 2029.

Naturalmente, nem tudo no livro me convenceu da mesma forma. Há aspectos editoriais que poderiam ter merecido maior atenção, nomeadamente algumas questões de pontuação, certas transições entre ideias e algumas passagens cuja sequência argumentativa me parece menos clara.

Encontrei também algumas incongruências discursivas. Por exemplo, quando o Professor afirma que o conflito em Cabo Delgado não pode ser reduzido a uma causa única, mas, logo a seguir, dá vários exemplos de factores que faz parecer que são parte da causa única.

Da mesma forma, quando escreve que o moçambicano precisa de “abandonar a ideia de que trabalhar é humilhação e recuperar a ideia de que trabalhar é liberdade” (p. 71), confesso ter sentido alguma dificuldade em acompanhar a premissa. O moçambicano que conheço é trabalhador. Pode estar desmotivado, frustrado ou privado de oportunidades, mas nunca encontrei, enquanto fenómeno social dominante, a ideia de que trabalhar seja humilhante.

O livro também me deixou com algumas perguntas.

Quando o Professor escreve que “a África do Sul é, para Moçambique, mais do que um país vizinho: é uma presença estrutural. É uma potência regional” (p. 45), não pude deixar de me questionar se um dos nossos erros históricos não terá sido a forma como gerimos a ruptura com o passado colonial, com o famoso decreto de 24h/24kg. Enquanto procurávamos expulsar o colonialismo, acabámos também por expulsar o capital humano e económico que poderia ter sido integrado no novo projecto nacional, algo que a África do Sul fez e conseguiu constituir uma Nação Arco-Íris (Rainbow Nation).

Outra questão surge quando afirma que “quando um país não tem força nos músculos, precisa de ter força na cabeça” (p. 51). As perguntas que me surgiram são simples: temos nós força suficiente na cabeça? E será que a escolha tem necessariamente de ser entre uma e outra? É que existem países que conseguiram combinar inteligência estratégica com capacidade económica, tecnológica e militar.

Fiquei particularmente satisfeito ao encontrar no livro referências à cidadania regional, um conceito que ocupa lugar central na primeira proposta que apresento em “Ensaio sobre um Manifesto”. Peço desculpa por introduzir, pela segunda vez, o meu livro nesta análise. Mas a verdade é que, ao longo da leitura, encontrei várias convergências de pensamento que me deixaram genuinamente feliz. E assumo que seja por isso que o meu amigo, Milton Muiocha, achou que eu devia ler este livro. Não é todos os dias que descobrimos que algumas das nossas inquietações são partilhadas por um dos maiores filósofos africanos da actualidade.

No fim da leitura, fiquei com a sensação de que “Memento para Moçambique” é menos um livro de filosofia política e mais uma carta de responsabilidade dirigida aos moçambicanos. Uma carta escrita por alguém que conhece profundamente o mundo, mas que continua a preocupar-se com o destino do seu país. E talvez seja precisamente essa a maior riqueza desta obra.

Obrigado, Professor Severino Ngoenha, por continuar a escrever. Obrigado por continuar a pensar Moçambique. Obrigado por ser um de nós. E obrigado por ter escolhido permanecer entre nós, partilhando reflexões cuja relevância ultrapassa largamente as nossas fronteiras.

 

Artigo de Vicente Sitoe

Receba a nossa Newsletter

Partilhar este artigo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.