“Endividamento interno estimula bancos a manterem taxas de juros elevadas”

“Endividamento interno estimula bancos a manterem taxas de juros elevadas”

A economista e pesquisadora Estrela Charles considerou hoje que a opção do Governo pelo endividamento interno estimula os bancos a manterem taxas de juros elevadas e a terem pouca apetência pelo financiamento às empresas e famílias.

“A banca nacional é uma banca que está dependente do Estado, é uma banca que está ao serviço do Governo” e este tem aumentado o recurso “à dívida interna”, disse Estrela Charles, pesquisadora do Centro de Integridade Pública (CIP), em declarações à Lusa.

Face às dificuldades para mobilizar financiamento externo, na sequência do escândalo das dívidas ocultas, Maputo passou a contar com mais dinheiro dos bancos comerciais, através da emissão de bilhetes de tesouro, levando a banca a preferir vender capital ao Estado, acrescentou.

“Os bancos comerciais, enquanto tiverem o Governo como seu cliente, não têm interesse em baixar as taxas e satisfazer o sector privado, porque já têm um cliente fixo, que é o Governo”, frisou economista e pesquisadora do CIP.

E o Estado, continuou, não tem interesse em arrastar negociações sobre empréstimos a taxas de juros mais baixas, dada a urgência em financiar o défice.

Com um cliente seguro na sua carteira – como é o caso do Estado -, as instituições financeiras nacionais não se sentem estimuladas a emprestar dinheiro às empresas e famílias, explicou Estrela Charles.

Mesmo quando o banco central aprova taxas de referência que seriam favoráveis a preços de dinheiro mais baixos, os bancos comerciais vão continuar à procura de margens de lucro exorbitantes que o Estado pode dar, referiu Charles.

“É por isso que mesmo em momentos de crise [na economia], enquanto as empresas privadas tiveram prejuízo e redução de trabalhadores, nós vimos a banca a ter lucros extraordinários, porque o cliente preferencial, assíduo, da banca em Moçambique é o Governo”, frisou.

Estrela Charles assinalou que as empresas públicas são também um fator de pressão sobre as taxas de juro no país, dado que a degradação dos seus capitais próprios provoca dependência em relação ao financiamento bancário, até “mesmo para pagar salários”.

A economista entende que para que o setor financeiro nacional se foque no apoio à economia, o Estado deve mobilizar empréstimos fora do país em mercados que vendem dinheiro a taxas de juro mais baixas e com prazos de maturação mais longos.

Uma vez que o Estado recorre aos bancos comerciais do país para financiar o défice, a solução também passa pelo rigor nas contas públicas e políticas de austeridade que cortem nas despesas de funcionamento, como senhas de combustível, subsídios, ajudas de custos e viagens, observou.

A pesquisadora notou que os cortes nas despesas do Estado devem proteger as áreas sociais, nomeadamente saúde e educação, mantendo e elevando os níveis de dotação orçamental.

“Se começarmos por aí, teremos, provavelmente, menos necessidade de crédito interno por parte do Estado”, concluiu.

A Associação Moçambicana de Bancos (AMB) anunciou em Abril que a taxa de juro de referência para as operações de crédito vai subir 50 pontos base para 19,1% em Maio, após sete meses sem alterações.

A taxa calculada pela AMB e pelo Banco de Moçambique tem por base um indexante único (calculado pelo banco central), que passa de 13,3% para 13,8%, e um prémio de custo de 5,3% (definido pela AMB), que se mantém inalterado.

A subida acontece depois de o Banco de Moçambique ter decidido aumentar a taxa de juro de política monetária no final de Março, o que influencia a fórmula de cálculo.

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