Da arquitetura à paixão pela tradução literária

Da arquitetura à paixão pela tradução literária

Sandra Tamele é licenciada em arquitetura pela Universidade Eduardo Mondlane, mas é nas letras e traduções onde reside a sua verdadeira paixão. Tudo começou ainda nos tempos da faculdade quando estava a cursar arquitetura, em 2006.

“Na faculdade de arquitetura nós tínhamos professores italianos e um curso livre de língua italiana. Agarrei a oportunidade e comecei a usar essas duas línguas (inglês e italiano) para pagar as propinas, através das explicações que eu dava”, conta Sandra Tamele, fundadora da Trinta Zero Nove, a mais ′recente′ editora que se dedica a tradução, interpretação e publicação de livros.

E foi desta forma que nascia a paixão pela tradução e interpretação. Já lá vamos. Depois de um percurso de quase uma década no mundo da literatura e tradução, com muitos escritos e registos, (que não eram acolhidos), nasceu precisamente em 2018, a Trinta Zero Nove.

“Em princípio de 2018 (…) porque achava que aqueles textos que estavam no computador mereciam ser publicados, e depois de bater várias portas de editoras sem sucesso, decide avançar no que mais gosto de fazer e fiz nesta área à conta própria,”, assegura orgulhosa.  E foi assim, que começou a génese da Trinta Zero Nove.

 

 

“Se nenhuma editora estava disposta a publicar a tradução, eu seria a editora dedicada e vocacionada a fazer a publicação”, conta ao MZNews a empreendedora de 42 anos, que na altura encarou o cenário como uma oportunidade de criar a sua própria editora. A dedicação aliada à paixão ao trabalho, fizeram com que ao longo deste ainda curto percurso, a Trinta Zero Nove evoluísse consideravelmente. E hoje a lista de obras traduzidas é imensa.

Desde os títulos nacionais e internacionais. “Sabe, tenho 51 títulos no catálogo neste momento e eles estão disponíveis digitalmente porque a publicação digital é menos onerosa”, adianta a empresária, e prossegue: “a minha visão é termos um título por mês no mínimo, mas realmente poderíamos ter todas as semanas um lançamento”, assume.

Ao nível de investimento a empresária refere ter já desembolsado do seu bolso um pouco mais de 4 milhões de meticais desde o início da Trina Zero Nove, e actualmente conta com oitos colaboradores freelancer.

“É um investimento grande, mas ao mesmo tempo gratificante quando vejo o resultado do trabalho que está sendo feito”, refere sentado à mesa do seu escritório, em frente ao seu computador “gigante” em Marracuene onde actualmente também reside.

Altos voos

Desde a sua fundação, em 2018, que a Trinta Zero Nove tem embarcado em grandes “voos” em matéria de traduções. “Sim, temos feito traduções em várias línguas nacionais e estrageiras”.

“Temos livros neste momento em oito línguas”, diz com satisfação. “Traduzimos em árabe, inglês, francês, alemão, espanhol, italiano”, elenca. “Ah, um dos factores que nos distingue é que estamos também a traduzir para as línguas nacionais, mais faladas”, refere a tradutora.

“Ao publicarmos nessas línguas conseguimos chegar ao mercado que não está a ser servido pelos nossos concorrentes”, refere convicta, “até quem é analfabeto vai conseguir ter acesso a obras literárias porque não creio que o analfabetismo implica desinteresse pela leitura”, fundamenta.

“E estamos a ir mais além agora porque queremos ser verdadeiramente inclusivos, então estamos a combinar formato híbrido com áudio e interpretação da língua dos sinais. Portanto quem for ao nosso site de Youtube vai ver um livro em formato diferente, um livro que é acessível a toda a gente”, explica. E não para por aí. “Além de fazermos a tradução, queremos promover a leitura inclusiva, tanto no aspecto financeiro (tornar o livro mais acessível a todos), do género  e inclusão do aspecto da deficiência”, assegura.

 

 

No que diz respeito à linha editorial, interessa à Trinta Zero Nove traduz autores cujos livros abordam questões sobre as minorias, que levantam questões relevantes.

Em apenas quatro anos de existência no mercado moçambicano a Trinta Zero Nove já selou parcerias ao nível internacional e não só. Em 2020 selou um acordo que vai permitir a distribuição de livros através das plataformas digitais do African Books Collective. “Somos a primeira editora lusófona a entrar nesta rede de distribuição que nos permite chegar a 80 pontos de vendas, quer livrarias físicas ou digitais”, diz.

“Na África lusófona somos o primeiro neste aspecto”, acrescenta. Ao nível dos títulos nacionais a editora já traduziu em inglês, francês e alemão a obra da Paulina Chiziane (Niketche), Ungulani Ba ka Khosa (Ualalapi) em inglês, entre outros títulos. Na lista dos “fora de portas” a empreendedora traduziu obras de Nageeb Mahfouz, Wole Soyinka, Lupita Nyongo, Raymond Antrobus de inglês e italiano para português.

De ponto de vista de ganho, além da projecção ao nível internacional, as traduções proporcionam aos autores 6% do valor das vendas. No ano passado, a Trinta Zero Nove foi a vencedora do prémio melhor iniciativa de tradução literária do mundo, num concurso que ocorre anualmente e que é organizado pela Feira Internacional de Livro de Londres. “Em 2021 nós conseguimos fazer história. Foi a primeira vez que isso acontece ao nível dos PALOP”, refere.

A história do início

Desde a infância que Tamele tem uma ligação forte com as línguas. “Quando estudava tinha uma aptidão particular para assimilação de línguas. Aprendi inglês sozinha. Desde que aprendi o bê-á-bá comecei a tentar explorar os livros que havia em casa, muito depressa, acho que aos 10 anos eu já tinha lido todos os livros que havia em casa”, recorda.

“E muitos desses livros não era possível achar em outras línguas (…) então eu peguei num livro de inglês e me ensinei sozinha a falar o inglês (…) e aos 11 anos eu já falava e conseguia-me comunicar nessa língua”, conta à reportagem do MZNews.

Mal sabia de que a língua haveria de se tornar no seu instrumento de trabalho e lhe levaria até onde chegou, nos dias que correm.  Em 2007, após a conclusão do curso de arquitetura Tamele conseguiu um estágio na sua área de formação. “Nesse período descobre que não conseguiria um salário naquilo que era a minha ambição, e foi neste momento que comecei a traduzir a tempo inteiro”, recorda.

 

Um verdadeiro reencontro com os livros que resulta de uma paixão que a “persegue” desde a infância. “Foi neste ano que consigo lançar a minha primeira tradução literária. Foi um livro que foi concebido de italiano para português”, diz animada.

A meio de todo este processo, Tamele viu a necessidade de aprimorar os seus conhecimentos linguísticos no ramo da tradução. Em 2010 decide fazer uma formação em tradução (…) “E em 2011 foi a primeira moçambicana a conseguir o diploma em tradução em uma organização inglesa que prova através de uma formação de dois anos, e exames para conseguir este título”, conta.

Hoje com a Trinta Zero Nove a tradutora pretende chegar bem mais longe. E mesmo a curto prazo, pretende construir uma livraria, biblioteca e incluirá também um escritório. “O nosso objectivo é que este projecto se concretize já agora em Abril, Dia do Livro. “Estamos agora em conversações com a administração da Marracuene, portanto, esta é a parte que já não flui tanto”, refere.

Mas os projectos da  editora Trinta Zero Nove não terminam por aí. No âmbito da responsabilidade social, a empresária tem projectos direcionados a crianças desfavorecidas. “Temos um projecto contra corrente que é de mini bibliotecas para as crianças desfavorecidas. Queremos que elas cresçam com hábitos de leitura. Esperamos concretizá-lo no futuro próximo”, conclui.

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