Carlos III: o príncipe que se torna rei aos 73 anos

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Carlos III: o príncipe que se torna rei aos 73 anos

Carlos III: o príncipe que se torna rei aos 73 anos

O novo rei do Reino Unido e líder da Commonwealth será o até então príncipe herdeiro, Carlos, que sucede à mãe, Isabel II, após a morte da mesma esta quinta-feira. De uma carreira militar – habitual e esperada dos homens da família real britânica – ao casamento com Diana e depois à controversa relação com Camila, recordamos o percurso do príncipe que nunca quis pensar na ascensão ao trono.

O príncipe esteve esta quinta-feira com a rainha, em Balmoral (na Escócia), poucas horas antes do anúncio do falecimento da monarca e poucas horas, também, antes de se confirmar que irá largar o estatuto de herdeiro, 70 anos depois, para se tornar no novo soberano dos britânicos e de 14 outros estados da Commonwealth.

Aliás, a estabilidade e sustentabilidade da Commonwealth – e por arrasto, da monarquia britânica – volta agora a ser fortemente questionada pelos críticos e analistas monárquicos, já que Isabel II era uma figura central e admirada por estas nações. “Big shoes to fill”, repete-se com modéstia nos canais britânicos.

Aos 73 anos, o agora rei Carlos III, segundo o jornal Económico, tem ocupado o primeiro lugar na linha de sucessão ao trono nas últimas sete décadas, fazendo dele o herdeiro que mais tempo esperou pela ascensão ao trono na história da monarquia britânica. Nem ele, nem os seus mais próximos, abriram até hoje grande discurso sobre esse aguardado momento, nem quando se especulou, no passado, que a rainha poderia abdicar a favor do filho mais velho. Mas muito se especulou que, chegada esta hora, Carlos abdicasse e colocasse o trono à disposição de William. Tal teoria não se veio a confirmar esta noite.

O primeiro filho de Carlos e Diana irá agora abraçar muitas das funções reais que cabiam ao pai, bem como os elevados rendimentos provenientes do principado de Gales e do ducado da Cornualha. Já Andrew, o irmão do monarca e segundo filho de Isabel II, que se mantém afastado e sem responsabilidades reais em virtude do seu alegado envolvimento e ligações ao escândalo sexual de Jeffrey Epstein, também esteve no avião que aterrou em Aberdeen esta tarde, apenas duas horas antes do anúncio oficial da morte da rainha.

Da escola à carreira militar

O príncipe tinha apenas três anos quando viu a mãe ser proclamada rainha, depois da morte do rei George VI em 1952. Logo aí, assumiu os títulos de duque da Cornualha, duque de Rothesay, conde de Carrick, barão de Renfrew e lorde das Ilhas, bem como de príncipe e grande intendente da Escócia. Títulos que acumulou, em 1958, com o de príncipe de Gales e conde de Chester. A investidura destes só viria a dar-se mais de dez anos depois, em 1969, numa das primeiras cerimónias monárquicas transmitidas pela televisão.

Com um percurso académico em linha com o que é esperado para os rebentos monárquicos, Carlos acabou por ser admitido no Trinity College em 1967.

Em Cambridge, dedicou-se a estudar Antropologia, Arqueologia e História e formou-se no mesmo ano em que viria a ocupar o seu lugar na Câmara dos Lordes, em 1970, sendo o primeiro herdeiro com um diploma universitário.

Por esta altura, ingressou nas forças armadas britânicas tendo, à semelhança dos filhos, cumprido serviço militar. Foi comandante de um barco de guerra entre Fevereiro e Dezembro de 76, pela Marinha, e piloto de helicópteros e caças.

O casamento, a traição e as polémicas

Em 1981, foi anunciado que Carlos iria casar com Diana Spencer, uma jovem aristocrata de 19 anos, filha do conde de Spencer. Era a primeira vez em mais de 300 anos que um herdeiro ao trono se propunha a casar com alguém fora da realeza. O casamento, a 29 de Julho desse ano, em Londres, contou com perto de 3.500 convidados e a cerimónia foi seguida por cerca de 750 milhões de espectadores. Do “casamento do século”, que tinha tudo de conto de fadas, resultaram os dois príncipes mais mediáticos da história contemporânea. Mas as polémicas não tardaram.

Apenas cinco anos depois, era revelado que ambos mantinham casos extra-conjugais. O novo monarca passou a assumir, bastante publicamente, a relação que mantinha com Camila Parker Bowles – ela que será rainha consorte. A separação não foi imediata, mas fazia tremer as relações internas da família real e fez estalar pela primeira vez, sem precedentes, a reputação pristina da casa Windosr. O divórcio chegaria em 1996, apenas um ano antes do acidente de carro em Paris, onde Diana acabaria por perder a vida.

O casamento com Camila viria a concretizar-se em 2005, mas em moldes muito mais discretos que o primeiro. De 3.500 convidados no primeiro, o herdeiro convidou apenas 28 para a cerimónia civil. Vale recordar que, na altura, a rainha e o marido só compareceram na bênção oficial por parte do arcebispo de Canterbury, o que foi interpretado como um claro sinal de que a família real não reconhecia a união com Camila.

Mas Carlos pouco ligou aos narizes torcidos da família e o tempo mostrou que, muitas vezes, é um bálsamo. Em anos recentes, a relação da rainha com Camila foi sendo gradualmente aceite pela família e pelo público.

Contudo, o novo milénio não foi sempre simpático para Carlos. Entre ocasionais acusações de racismo, quando em 2009 chamou de ‘sooty’ (inglês para ‘fuligem’) a um amigo de ascendência indiana, ou de alegações de que terá recebido doações generosas de origens duvidosas.

Em 2013, o Fundo de Caridade do Príncipe de Gales (PWCF) recebeu doações de dois meios-irmãos de Osama Bin Laden e, em 2017, os documentos ‘Paradise Papers’ listaram-no junto a tantos outros magnatas, celebridades e figuras mundiais com fortunas escondidas em paraísos fiscais. Na altura, o agora rei veio negar o envolvimento na off-shore de Bermuda, a partir da qual terá, alegadamente, recebido compensação pelo seu envolvimento numa política sobre alterações climáticas, dez anos antes.

Mais recentemente, veio a ser revelado que Carlos terá alegadamente recebido perto de 3 milhões de euros, em dinheiro vivo, de Hamad bin Jassim bin Jabel Al-Thani, da família real do Qatar. O montante era, supostamente, destinado a doações filantrópicas do príncipe herdeiro.

Um novo capítulo

Em Junho deste ano, durante as celebrações do Jubileu de Platina da rainha Isabel II, Carlos fez um discurso muito sentido à mãe, a quem sempre carinhosamente se referiu como ‘mummy’ (mãezinha). “Tu ris e choras connosco e, mais importante, tens estado sempre aqui para nós, ao longo destes 70 anos”, disse o monarca.

Carlos irá agora ocupar uma posição que é suposto simbolizar estabilidade e coesão, numa altura em que os tempos mudam, e em que as tensões políticas e sociais no Reino Unido mudam com eles. De um percurso de décadas, em que habituou o público a declarações sem filtro, por vezes controversas, entra agora numa fase em que lhe é exigida contenção e neutralidade. Também em Junho, expressou preocupação quanto à actuação do governo britânico perante os pedidos de asilo de habitantes do Ruanda. Clarence House veio nessa altura garantir que Carlos se manteria “politicamente neutro” quando fosse monarca.

Inicia-se, assim, um novo capítulo na história do Reino Unido e, por sinal, na história de Carlos, para quem a ocupação do trono sempre foi um tema tabu.

Esta sexta-feira, deverá ecoar pela primeira vez em quase um século, um hino nacional dedicado a um homem e, agora, chega o momento de questionar: que príncipe foi – e que rei será – a pessoa que toda a vida quebrou protocolos e não se inibiu de opinar, em total contraste com o mãe, que morreu esta quinta-feira.

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