Dois analistas disseram ontem à Lusa que o Governo precisa rapidamente de reposicionar meios de defesa e segurança para impedir o alastramento dos grupos armados a mais províncias do país, dada a natureza expansionista da insurgência.
“Pelo formato deste tipo de grupo, eu sempre disse que é um grupo de expansão, o que significa que podem ser quatro ou seis [insurgentes] e criam um dano”, disse à Lusa Muhamad Yassine, docente na Universidade Joaquim Chissano e especialista em Relações Internacionais.
Yassine apontou a elevada densidade populacional da província de Nampula, presença de uma população predominantemente muçulmana e a incapacidade das autoridades de controlar a circulação de pessoas e recolha de informação como factores que propiciaram o alastramento da acção dos grupos armados associados à insurgência que começou em Cabo Delgado em 2017.
“Quero acreditar que a nossa fraca capacidade de mobilizar recursos [de defesa], para proteger Nampula, na sua dimensão, tenha sido um dos factores fundamentais para estes ataques”, enfatizou.
A vizinhança entre as duas províncias e a localização das principais bases dos grupos armados, entretanto desmanteladas em Cabo Delgado, também foi um elemento de peso para a extensão da violência para Nampula, observou.
Considerou relativamente menos lesivas as recentes incursões dos rebeldes à província de Nampula, mas suficientemente preocupantes para o Governo preparar-se melhor face a eventuais novas investidas dos grupos armados.
Aquele especialista notou que a facilidade de mobilidade dos grupos armados entre Cabo Delgado e Nampula, o padrão de alvos escolhidos – casas, bancas de venda de alimentos e instalações da Igreja Católica – e a facilidade de infiltração e recrutamento de membros nas comunidades locais mostram que os grupos armados são maioritariamente constituídos por moçambicanos e que já estavam preparados para um desdobramento na região norte.
Por outro lado, prosseguiu, houve análises internacionais sobre segurança que referiam Nampula como palco natural da expansão do extremismo que começou em Cabo Delgado.
Muhamad Yassine observou que “já era evidente que, sem um trabalho específico de informação, Nampula seria um alvo da acção dos grupos armados”.
Sobre relatos de que os insurgentes estão a tentar mobilizar jovens em Nampula para reforçarem as fileiras, o académico defende uma “contra narrativa” que possa neutralizar a “radicalização”, através de um combate ideológico.
Por seu turno, Dércio Alfazema, analista e diretor de programas na Organização Não-Governamental (ONG) Instituto para a Democracia Multipartidária (IMD, sigla inglesa), considerou que as Forças de Defesa e Segurança (FDS) devem aumentar a capacidade de mobilização de meios para conterem a dispersão de grupos armados na região norte.
“Há uma necessidade de evitar que eles [os grupos armados] criem novos núcleos, de impedir a movimentação no triângulo Cabo Delgado, Nampula e Niassa”, disse Alfazema.
Os serviços de informação devem intensificar a recolha de dados sobre novos recrutamentos, movimentações e alvos seleccionados pela insurgência,
A semelhança das características etnolinguísticas com Cabo Delgado e a forte influência do islão tornam Nampula num terreno atractivo para a expansão do radicalismo, alertou Alfazema.
“Eles fracassaram na província de Niassa, porque há ali diferenças com Cabo Delgado”, enfatizou.
Dércio Alfazema notou que as tentativas de doutrinação de jovens em Nampula mostram a importância de um diálogo entre as autoridades, líderes religiosos e a sociedade civil, no geral.
O secretário de Estado de Nampula, Mety Gondola, disse na quinta-feira que as autoridades reforçaram a segurança face a novos ataques no extremo norte daquela província moçambicana, assegurando que as instituições estão a funcionar nos pontos afectados.
“Reforçámos bastante a nossa capacidade nestes últimos dias e temos equipas em desdobramento”, declarou o secretário de Estado de Nampula, citado pela Rádio Moçambique.
Em causa estão ataques registados nas últimas semanas no extremo norte daquela província, incursões armadas cuja autoria é atribuída aos rebeldes que têm aterrorizado, desde 2017, Cabo Delgado, província vizinha de Nampula.
Os ataques no extremo norte de Nampula deixaram um número ainda desconhecido de mortos, incluindo uma freira italiana assassinada durante um ataque à missão católica em Chipende, no extremo norte da área que faz parte da diocese de Nacala.
A província de Cabo Delgado é rica em gás natural, mas aterrorizada desde 2017 por violência armada, sendo alguns ataques reclamados pelo grupo extremista Estado Islâmico.
A insurgência levou a uma resposta militar desde há um ano por forças do Ruanda e da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), libertando distritos junto aos projectos de gás, mas levando a uma nova onda de ataques noutras áreas, mais perto de Pemba, capital provincial, e na província de Nampula.
Há cerca de 800 mil deslocados internos devido ao conflito, de acordo com a Organização Internacional das Migrações (OIM), e cerca de 4.000 mortes, segundo o projecto de registo de conflitos ACLED.


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